Quando as coisas não dão certo ou quando uma corda arrebenta!

Quando as coisas não dão certo ou quando uma corda arrebenta!

Hoje quero falar com vocês sobre cordas que arrebentam…quando as coisas parecem dar errado. Para isso vou contar duas histórias que envolvem animais.

Os animais parecem ter uma qualidade fantástica para lidar com o presente. Tenho aprendido muito com eles nos últimos anos. Talvez eles não sintam as emoções que nós sentimos, da forma como nós sentimos. Mas por vezes é mais fácil de entender determina situação que os envolve, qualificando suas reações com emoções humanas.

A primeira história aconteceu em meu quintal no último mês de novembro. Durante alguns dias eu estava dormindo bastante e nos intervalos entre um sono e outro pude observar um casal de pombos. Primeiro eram vários pombos e a corte estava sendo feita, depois de um tempo, a disputa foi resolvida e um casal se formou. Os dois eram bem menores que os outros pombos, mas de alguma forma resolveram ficar juntos.

Descobri que pombos fazem barulhos diversos que eu nem imaginava que pudessem produzir. Veio então o acasalamento e por fim iniciaram a construção de um ninho. Começaram a construir o ninho em um telhado de minha casa que dá para o quintal dos fundos. Todo dia a tarde eu ia conferir a construção e descobrir novos sons que eles produzem. Aprendi que pombos sabem, por exemplo, assobiar.

Passados alguns dias, eles começaram a se revezar no ninho e a enfrentar problemas. Aparecerem pombos maiores e um gavião começou a sobrevoar a área. Um dia a tarde, ao acordar fui até o quintal e descobri o ninho no chão e os restos de possivelmente dois ovos quebrados. O casal acabrunhado estava empoleirado no telhado do vizinho. Ficaram ali por pelo menos três dias, pareciam visivelmente deprimidos. Não saiam para comer, ficavam imóveis, olhando para onde antes estava o ninho. Não sei dizer o que aconteceu. Teria sido o gavião? Ou algum outro pombo? Nunca saberei.

 Como disse, talvez pombos não tenham as emoções que nós humanos temos, não sintam como nós, mas certamente algo eles sentem, e penso ser natural nomearmos suas reações e posturas com emoções que nos são conhecidas.

Para mim, pareceu que os dois estavam unidos e procuravam consolar-se pelas perdas – do ninho, da perspectiva dos futuros filhotes, por todo um trabalho perdido. E lamentavam! Os sons que fizeram depois da queda do ninho me pareciam bem mais tristes que os feitos nos dias de cortejo, acasalamento e trabalho.

Estava pensando em como eles pareciam tristes e pensei na Laica. Esta é a segunda história.

Em agosto de 2013 fui a Taubaté visitar uma sobrinha e sua família. Antes de voltar para o Rio fomos conhecer uma feira de animais para adoção onde minha sobrinha costumava ir para ajudar.

Para evitar me envolver ou me apaixonar por um dos animais da feira me mantive um pouco afastada de onde estavam os filhotes para adoção. Acontece que Laica é uma pastora, adulta, e não estava em um cercado ou coisa do gênero. Uma senhora a segurava pela guia e se mantinha um pouco afastada dos outros cães. Coincidência ou não, a senhora parou ao meu lado deixando laica do outro lado. Ela então deu a volta na senhora que a segurava e se apoiou na minha perna, sentando ao meu lado. Eu lhe dei minha mão para cheirar e depois fiz um breve afago em sua cabeça. Sai de perto.

Tudo que vi e senti foi que ela estava deprimida ou algo parecido. Ela não parecia doente, ao contrário. Parecia profundamente triste por estar ali, daquela tristeza que nos atravessa a alma e parece não ter fim.

Depois de um tempo, Laica e a senhora se aproximaram novamente. Mais uma vez Laica sentou ao meu lado e se apoiou em minha perna. Desta vez eu me abaixei e lhe fiz carinho. Ela apitou e suspirou profundamente. Então eu lhe disse que ia passar, aquela situação toda ia passar. Era possível superar aquele tipo de tristeza e ficar bem. Eu sabia disso pois eu superei, não foi fácil, mas é possível.

Voltei para o Rio e algo aconteceu. Comecei a sonhar com a pastora, eu não sabia seu nome. Mas sonhava com ela, pensava nela dia e noite, então…. comecei a negociar no Rio e a fazer contato com minha sobrinha para saber do paradeiro da cachorra.

Soube então que ela estava em São Paulo e pertencia à padres que estavam sendo transferidos. Os padres que viriam para o local que ela vivia não a quiseram manter. Uma pessoa que dedica parte de sua vida ajudando animais abandonados levou laica para a feira em Taubaté na esperança de que ela encontrasse um lar, antes que o prazo final para sua permanência junto aos padres terminasse. Consegui fazer contato com ela e após demonstrar meu compromisso com a adoção, o local onde a cachorra ficaria e que minhas intenções eram reais, a adoção foi aprovada. Tínhamos então apenas cinco dias. Conseguimos estender o prazo e através da veterinária que cuida de meus animais consegui um profissional que faria o transporte da cachorra de forma adequada.

Em setembro do mesmo ano Laica chegou à minha casa. Ainda deprimida, assustada. Não levantava o rabo e não o abanava. Eu acreditei que respeito teria que ser a base de nossa relação. E assim foi.

No terceiro dia em que ela estava em casa, antes de ir para o trabalho, me sentei perto dela e lhe disse que ela ficasse despreocupada. Ela não tinha que guardar a casa, não tinha que fazer nada, além de ser feliz. Que para qualquer lugar que eu fosse, acontecesse o que acontecesse, minha casa seria a casa dela até sua morte. Eu manteria os gatos distantes e ela não precisava se preocupar com isso. Do que dependesse de mim ela teria uma velhice tranquila, esse era seu lar.

Possivelmente estas palavras fizeram mais sentido para mim que para ela. Fui trabalhar tranquila. Naquele dia, à noite, quando retornei do trabalho, ela veio me receber no portão e pela primeira vez abanou o rabo. Demorou um pouco mais para que viesse a erguê-lo, mas o abanava, ainda que baixo.

 Passados dois anos e alguns meses, Laica brinca, pede carinho (muito carinho), saltita na hora da comida, mas nunca faltou com respeito, nunca pulou em mim, nunca rosnou para mim, nunca foi desobediente, ao contrário, é de uma obediência exemplar.

Quando as coisas não dão certo ou quando uma corda arrebenta!

Cara de triste ela faz, mas só quando quer fazer chantagem e ficar dentro de casa, algo que acontece com muita frequência. Os gatos? Bem, ela no início demonstrava respeito e procurava ficar distante, como que se controlando. Agora fica relaxada na presença deles e os saúda com alegria moderada, ela parece saber o quanto é grande rs.

Creio que para ela é muito mais fácil superar aquele tipo de tristeza, pois cães vivem no presente. Diferentes de nós humanos que nos torturamos com o passado, quando algo acontece, e antecipamos sentimentos terríveis com um futuro incerto.

Como seria bom se aprendêssemos com os animais a viver no presente. A vivermos nossos lutos e tristezas quando se apresentam, mas entendêssemos que ficar presos a esses sentimentos nos impedem de viver o hoje com todas as suas possibilidades. Como seria libertador se pudéssemos aprender a lidar com as situações difíceis como fizeram os pombos e a Laica.

O que aconteceu com os pombos? Bem, depois de alguns dias acabrunhados e tristes, eles se lembraram do obvio, eles ainda podiam voar e foi o que fizeram, juntos.

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