O que você quer ser quando crescer?

O que você quer ser quando crescer?

Essa é uma pergunta comum feita às nossas crianças. Quem não a ouviu quando era criança?

Costumeiramente quando era feita, a pergunta buscava saber qual profissão a pessoa pretendia ter, revelando em parte alguma preferência por essa ou aquela área.

Pelo menos era assim, mas as coisas mudaram. Não que eu pense que antes era melhor, mas a lógica hoje é ainda mais cruel em relação à escolha da profissão.

Teoricamente ainda encontramos o belo discurso de que as pessoas escolhem suas profissões pelo gosto, escolhem o que querem fazer, e consequentemente escolhem o quanto querem ganhar, já que todos sabem as remunerações médias de cada profissão.

Na prática, em nossa sociedade, regida por uma lógica econômica feroz, a coisa se dá de forma bem diferente. Muitas escolhas são feitas a partir da remuneração média, e esta remuneração é determinada por questões relacionadas ao mercado e a tradição histórica da profissão. Outras pela oportunidade que se tem, ou não se tem.

Existem várias questões que para mim são relacionadas a esta lógica, mas hoje destaco uma. O valor que é dado ao conhecimento. Houve com o tempo uma distorção do que é este valor. Começasse com a cruel pergunta – Por que eu tenho que aprender isso? Vai servir para quê?

Se o objeto de estudo não tem um valor relacionado a uma questão prática, simplesmente ele perde o valor. Vou usar todo esse conhecimento de filosofia para arrumar um emprego? Em que Kant, Foucault e Platão vão me ajudar na hora de pagar as contas? Para que tenho que aprender essa equação de segundo grau? E Geometria se não quero ser engenheiro? Ora, para que aprender biologia se vou ser advogado?

Esquecemos, ou nos fizeram esquecer, que tais conhecimentos têm valor em si. Nos fazem pensar, dão material para que aquelas coisinhas que formam nosso sistema nervoso central, os neurônios, possam ter com o que trabalhar.

Sem isso, fomos perdendo a capacidade de pensar criticamente, abstrair, ter pensamento lógico. Isso sem falar no desenvolvimento do sentido estético.

Uma das maiores qualidades humanas – o que nos diferencia do restante das espécies do planeta – é nossa capacidade de pensar sobre nosso fazer, nosso sentir, e principalmente sobre nosso pensar. Pensar sobre o que pensamos, e como pensamos. Como construímos o pensamento seja qual for. Porém, seguimos por um caminho perigoso, onde tal exercício ficou limitado a poucos.

–  Tudo bem, vocês podem pensar um pouco só no que fazem, vamos abolir as linhas de montagens, não está dando certo, precisamos de pessoas que pensem sobre o que fazem.

– Tudo bem, alguns de vocês até podem pensar no que sentem, desde que sintam melhor para produzir mais, consumir mais, vender mais.

– Não…. pensar sobre pensar não pode, cansa, dá trabalho e não serve para nada.

Então, passamos a ter um grande número de pessoas, que ao serem questionadas sobre como se imaginam daqui a 10 anos, respondem com uma lista enorme de coisas que querem ter. Crianças quando questionadas sobre o que querem ser quando crescer, não apenas apontam a profissão pretendida, como também o quanto vão ser famosos e vão conquistar com ela. Poucos adultos ou crianças incluem como querem ser, o que querem ter aprendido, o que querem ter conhecido.

Desaprendemos a ler pelo prazer de ler, a ouvir boa música pelo prazer de ouvir, a conhecer pelo prazer de conhecer, a pensar pelo prazer de pensar. Tudo em nome do melhor fazer, ignorando que abandonando esses saberes, empobrecemos o que fazemos, como agimos e o que somos.

Então me pergunto, quem queremos ser, se nos submetemos a uma lógica tão cruel?

Pela valorização do ser e não do ter!

Abraços, PAZ

Flavia Carvalho

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