O Nome das Coisas

O Nome das Coisas

Olá hoje é dia de uma das histórias contadas por minha avó. Logo vocês entenderam a foto do post rsrs.

Toda vez que vou escrever uma de suas histórias fico na dúvida de qual contar, eram muitas. Sempre lamento não ter pensado, na época em que ela estava viva, em gravá-la contando as histórias. Espero que minha memória não me traia, de certa forma gosto de registrar o que lembro das histórias para nunca as esquecer.

Minha avó tinha pouco estudo, mas gostava muito de ler e de escrever. Ela dizia que começou a escrever um pouco melhor quando aprendeu com minha tia Claudete, sua única filha mulher, que devia ler prestando atenção nas palavras, em como eram escritas, em como as frases eram construídas.

Durante um tempo eu achava engraçado o jeito que ela escrevia, era uma escrita formal, depois ficou claro para mim que sua escrita era influenciada diretamente pela versão da Bíblia que ela lia. Ela gostava de ler outros livros, lia coisas diversas, mas consumia as publicações da escola bíblica e dos grupos da igreja de que participava, as revista da união de adultos, a revista da junta de missões, da sociedade de senhoras, a revista de leituras devocionais enfim todo material disponível, mas com certeza sua leitura diária era a Bíblia.

Era uma pessoa que falava da importância de estudar e várias vezes me disse para estudar muito, que só assim, aprendendo, conhecendo as coisas, eu poderia conseguir viver bem. Tinha orgulho em dizer a formação de seus netos, de todos. Sentia-se parte da história deles através de seus filhos.

Com ela foi diferente. A mãe dela se separou de seu pai ela ainda estava na barriga. Ela contava que para poder estudar o pouco que estudou, ela não tinha nem a terceira série primária, sua mãe a colocou na casa de uma família onde ela devia fazer atividades domésticas. Me lembro dela contando que tinha que limpar os talheres de prata da dona da casa, lavar louça, coisas assim, era tão pequena que para lavar as louças subia em um banquinho. Em troca ela poderia ir à escola que havia perto da casa da família, uma escola de freiras. 

Ela ia à escola durante um período do dia e no outro ajudava na casa. Em um dia de aula a professora passou um dever para copiar. Ela copiou o dever e depois se colocou de pé e pediu para fazer uma pergunta para a professora. Perguntou qual era o nome verdadeiro das ventas, era assim que chamavam os buracos do nariz rs. A professora disse que eram ventas, ela imitava a voz anasalada da professora – São ventas, menina, são ventas.

Ela retrucou dizendo para a professora que não podia estar certo, que ela só queria saber o nome correto. A professora diante do desafio a botou de castigo.

A Madre passou e a viu de castigo (inacreditável, joelho no milho aff), perguntou para a professora por que ela estava ali e recebeu como resposta que ela era abusada, que não a respeitava. Então minha avó falou – Eu só queria saber o nome correto das ventas.

No final da aula a madre a chamou em um canto e lhe disse que não questionasse nunca mais a professora e que o nome correto eram narinas, as ventas se chamavam narinas.

Para minha avó ficou claro que a professora não sabia, por isso se irritou tanto. Logo depois a mãe dela percebeu que estavam exagerando quanto ao trabalho doméstico e a tirou dali. Nunca mais ela voltou a estudar, mais tarde começou a trabalhar e assim foi até se casar e engravidar do primeiro filho.

Uma história tão simples e tanto a aprender rs. Professores não sabem de tudo, ela dizia, e só são bons quando assumem isso. Devemos sempre procurar entender as coisas corretamente, procurar o nome correto das coisas, perguntar, questionar. Lembrando sempre que isso pode aborrecer algumas pessoas e as consequências podem ser ruins, mas saber a verdade, buscar o conhecimento, ainda que doa, vale a pena. Ela nunca se esqueceu que o nome correto daquilo que ela chamava de ventas era narinas e que apesar do castigo, saber a verdade, encontrar a resposta, valeu o preço pago.

Penso que essa história vem bem a calhar considerando o momento que vivemos em nosso país e no planeta, mas não me alongarei com minhas análises, cada um deve buscar suas respostas e arcar com as consequências.

Abraços, PAZ

Flavia Carvalho

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