Honestidade por Princípio

Honestidade por Princípio

Minha avó Alzira era uma grande contadora de histórias. Amo histórias e em especial as que ouvi dela. Ela gostava de dizer que a sua vida daria um livro e sempre dava ênfase em alguns fatos que certamente a marcaram.

Suas histórias estão sempre presentes, pois são próprias a várias situações cotidianas.

Vou compartilhar com vocês algumas de suas histórias mais marcantes. Talvez você conheça essas histórias de outra forma ou tenha ouvido alguma versão parecida. Se você conheceu Dona Alzira considere que “quem conta um conto aumenta um ponto”, por outro lado se você não a conheceu, qualquer semelhança é mera coincidência (a vida se repete, ela é mesmo assim).

Algumas dessas histórias ela contou dezenas de vezes, mas sempre a exatidão dos fatos era mantida, modificando as vezes a riqueza dos detalhes por força do tempo disponível para a conversa ou o interesse do ouvinte.

Uma das que eu ouvi várias vezes, era a história dos doces e seu padrinho. Sempre me intrigou tal história.

Doce Honestidade

Ela contava que quando criança brincava na rua e por vezes quando seu padrinho vinha visitar sua mãe, ele a encontrava distante de casa. Então ele lhe dava dois doces, um para  sua irmã e outro para ela e seguia para sua casa.

Minha avó sempre reparava que o doce de sua irmã era maior que o dela e contava que ia no caminho entregar o doce, medindo os doces (então ela – sempre – demonstrava a diferença dos doces fazendo a medida com os dedos rs) e pensando do por que ele sempre dar o maior para sua a irmã e não para ela, que afinal de contas era sua afilhada e queridinha. Quando encontrava com sua irmã lhe dava o doce enviado (o maior) e seguia com a brincadeira.

Anos mais tarde ficou sabendo por seu padrinho que durante muito tempo ele ao invés de ir para sua casa seguia seus passos para ver como ela se comportaria. Ele lhe dava o doce menor como teste, então com muita alegria ele lhe disse que ela nunca o tinha decepcionado, pois sempre entregou o doce maior para sua irmã.

Esta história minha avó contava quando queria reforçar o argumento de que nunca havia tirado nada de ninguém e da importância de sermos honestos mesmo quando ninguém está vendo. Para mim essa história ilustra muito bem o que é ter a honestidade por princípio.

Os princípios morais só o são de fato princípios quando não há mecanismos de controle e vigia que nos impulsione a realiza-los.

Quando ninguém ver

Por exemplo: Uma pessoa se vê sozinha com uma determinada quantia de dinheiro que não lhe pertence, ao seu alcance. Se esta pessoa não lança mão do dinheiro, ou seja, não o rouba, por existirem câmeras e por receio de ser descoberta, o principio moral de não roubar, não pegar o que não é seu não está internalizado. Ela sabe o que é correto, ela entende, mas não internalizou esse princípio, já que depende de forças externas para praticá-lo. Porém se mesmo na ausência de câmeras, na certeza que ninguém descobriria ela não tomasse para si o dinheiro, por responder a sua própria consciência, então ela estaria obedecendo a um princípio seu.

É interessante notar que por vezes nos vemos em pequenos dilemas. Há hoje no Rio uma lei que multa o cidadão que joga lixo no chão. Então vemos dezenas de fumantes indo às lixeiras para apagar seus cigarros quando existe a presença dos agentes da lei. Por outro lado encontramos dezenas de guimbas de cigarros no chão nos locais onde estes agentes não atuam. Prova mais do que clara que não jogar lixo no chão, não poluir a cidade, não destruir o meio ambiente em que vivemos, não é um principio internalizado por grande parte da população, pelo menos não dos fumantes.

Milhares de outros exemplos podem ser dados.

Finalizando

Na história de minha avó, ela como criança questionava o que julgava uma injustiça, porém agia de acordo com um princípio que já estava em desenvolvimento, ela era obediente e honesta, já que trocar os doces seria, não só desobedecer a seu padrinho, como também prejudicar sua irmã destinada a receber os maiores doces.

Não nascemos seres morais e éticos, desenvolvemos tais dimensões do nosso ser. Se não houve oportunidade de fazê-lo quando mais jovens que não percamos a oportunidade de refletir sobre essas questões e buscar a cada dia a internalização de princípios, mesmo que ninguém esteja vendo!

Abraços

Flavia Carvalho

Tags: | | | | |

0 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *