Experimentar!

Experimentar!

Semana passada fiquei devendo um post sobre as histórias que minha avó Alzira costumava contar. Ela era uma grande contadora de histórias e eu adorava ouvi-las, às vezes várias vezes a mesma história. Peço desculpas pela semana passada, mas a miastenia alguns dias cobra seu preço…esse calor está acabando comigo.

Enfim, com atraso, segue mais uma das histórias da minha avó.

Ensopado

Ela contava que quando conheceu meu avô Carlos ele era bem magro e que um pouco antes de se casarem ela foi avisada por sua sogra, Dona Ana, que ele era muito chato para comer e que só comia bife com batata frita, qualquer outra coisa diferente ele recusava.

Bem, se casaram, estavam iniciando a vida e eram só os dois, então a situação permitia que la fizesse a comida de preferência dele. Ela para agradar fazia todo dia o que ele gostava de comer. Com o tempo, além do bife e da batata frita dele, ela começou a fazer uma mistura diferente para ela. Aqui cabe explicar que mistura era como minha avó chamava o complemento do prato e até hoje eu chamo assim rs. Por exemplo, arroz de feijão são a base e a mistura seria o que tem para comer junto, bife, frango, ovo, ensopado, enfim, o complemento.

No início ela não ligava que ele comesse o bife e pedisse para experimentar a mistura que ela tinha feito para ela. Assim se passaram  os dias, ele vindo almoçar e ela reparando e começando a se aborrecer pelo fato dele acabar sempre consumindo dos dois pratos.

Um belo dia quando ele chegou para almoçar ela fez os dois prato exatamente iguais: arroz, feijão e ensopado de carne com batatas, devo dizer, que o ensopado de carne com batatas da minha avó era maravilhoso. Ele prontamente questionou o que era aquilo e ela respondeu – É a nossa comida hoje. Ele então perguntou pelo bife e ela lhe disse: – Isso é o que tem para hoje. Ele não disse nada. Comeu o ensopado e repetiu rs.

Jeito de Vó

Minha avó tinha um jeito duro de ser, mas eu amava como ela era capaz de usar estas histórias para nos ensinar algumas lições. Eu acabo em algumas ocasiões usando como ela “causos” para dizer o que quero dizer.

Quem nunca experimentou…

Quando eu dizia que não gostava de determinada coisa e pronto, ela sempre contava a história e dizia – “Quem nunca experimentou não pode dizer que não gosta”. Se eu dissesse que estava com medo de determinada situação ela vinha com essa história e dizia: É uma situação nova, se você não experimentar nunca vai saber. Se quando estiver lá sentir que está fazendo algo errado, ou simplesmente não estiver gostando, venha embora.

Quantas vezes nos negamos viver algo diferente, rejeitamos alguma coisa, e não estou falando só de comida, porque simplesmente é mais seguro estar e fazer o que conhecemos, não arriscamos conhecer novos sabores. 

Entendam, não estou dizendo que não existam coisas das quais de fato não gostamos, nem que não existam coisas que por princípios ou motivos morais devamos nos negar a experimentar. São coisas diferentes: eu me negar a experimentar algo porque meus princípios dizem que não devo fazê-lo, eu me negar a experimentar algo porque já o fiz antes e não gosto daquilo mesmo, e nesse caso não seria experimentar né,  e eu deixar de experimentar algo porque simplesmente acho que não gosto ou que não vou gostar. É desse último caso que estou falando. 

Gosto é gosto

Nestes casos há inclusive aquela ocasião em que aprendemos algo e gostamos do que aprendemos, então queremos parar por ai. Notem que isso é diferente de repetirmos determinadas tradições, como por exemplo, eu pedir uma média com pão na chapa na padaria para cultivar a memória afetiva de meu avô Carlos e meu pai.  O que questiono, é quando nos vemos diante de alguma situação nova, nós automaticamente a rejeitamos e dizemos – eu aprendi assim e só gosto assim.  Seria como tomar uma média com pão na chapa na Colombo rsrs. Até experimentamos de vez em quando algo diferente, e gostamos, mas nos mantemos na segurança daquilo que pensamos ser a única opção que temos. Há casos e casos.

Eu gosto de ler esse tipo de livro aquele não. Li uma vez de um amigo um trecho e gostei, mas eu não leio….Eu não gosto de ler…Eu não gosto de determinado tipo de música, ouvi no carro de um amigo uma vez, achei legal, mas eu não ouço…e por ai vai.

Bem, eu não gosto de jiló, mas eu já comi jiló, eu não gosto de quiabo, mas eu já comi quiabo feito pela minha avó, sem baba e odiei rs. Eu não gosto de ouvir Naldo, mas ouvi hoje na espera do consultório e prestei atenção, honestamente, péssimo para mim rs.

As vezes a vida se apresenta com circunstâncias em que é impossível continuar fazendo a mesma coisa que sempre se fez, simplesmente não é possível, neste caso não por escolha, mas por força das circunstâncias somos obrigados a mudar, a experimentar coisas novas, e como dizem por aí, é muito melhor aprender pelo amor do que pela dor.

Algo novo

Se dê o direito de experimentar algo novo, não fique só no sorvete de chocolate, ou no meu caso, só no picolé de limão, experimente o de graviola…e depois, você vai poder tomar o seu preferido. Leia algo diferente, escute uma música diferente, arrisque conversar sobre um assunto diferente com um amigo diferente, arrisque fazer algo diferente, uma nova maneira de se levantar, uma nova forma de enxergar as pessoas, uma nova forma de se enxergar, experimente passar um dia acreditando que você é quem você quer ser. Quantas vezes somos aquilo que nos disseram que somos e quantas vezes nos negamos a experimentar ser diferentes, simplesmente porque se tornou confortável ser o que pensam que somos e agir como acham que vamos agir.

De qualquer forma, mudar, experimentar coisas novas, pode se tornar uma grande aventura, não se trata de trair as tradições ou jogar tudo fora, mas ampliar a visão. Minha avó me disse uma vez que continuou fazendo o bife com batatas fritas para meu avô, pelo menos algumas vezes no mês, enquanto a situação financeira permitiu, e nesses dias ela também comia a mesma coisa que ele. 

Abraços, PAZ

Flavia Carvalho

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