Despedida Albieri

Despedida Albieri

Com grande pesar comunico que, no último dia 03 de junho, meu amigo Albieri teve sua vida abreviada com o propósito de evitar sofrimentos e dores que seriam inevitáveis, se ele conosco permanecesse.

Na última quinzena de abril Albieri perdeu peso de forma brusca e logo chamamos nossa veterinária para entendermos o que estava acontecendo. Nutri de esperança minha alma de que ele estivesse com otite ou algo do gênero, o que atribuí a idade (no próximo dia 30 ele faria 11 anos), já que sempre foi um gato saudável e nunca, absolutamente nunca, ficou doente. Infelizmente o diagnóstico dado no dia 06 de maio foi outro. Albieri estava com linfo nódulos no abdômen e apesar de todos os nossos esforços e esperanças ele não permaneceu conosco nem mais um mês.

Quando o diagnóstico foi dado sabíamos que não teríamos muito tempo e tratei de começar a preparar um material para expressar de alguma maneira a importância que ele tinha para mim e, claro, direcionar para algo todo o medo, angústia e tristeza que senti. Comecei com uma apresentação, onde pretendia contar de forma ilustrada a nossa história, cheguei mesmo a encomendar duas ilustrações, mas não consegui progredir para além de alguns fragmentos. Tentei então contar a história escrevendo, porém mais uma vez não passei do momento em que Albieri entrou em nossas vidas.

Talvez daqui um tempo eu consiga retomar tais projetos e os compartilhe com vocês. Na impossibilidade de fazê-lo de forma apropriada como nossa amizade merecia, escrevo-lhes este texto.

Bem, devo confessar que não sou de todo normal, e o faço sem receio, pois quem é…quando somos mais jovens ficamos reticentes em confessar nossas loucuras pois temos a ilusão que nos são exclusivas, mas como ouvi certa vez de uma amiga, a loucura é o normal amplificado, ou ainda, como diria Caetano, de perto ninguém é normal rs. O fato é que existem muito mais pessoas do que podemos imaginar com os mesmos tipos de loucuras e segredos que nós…

Aprendi logo cedo os princípios cristãos, pois cresci em um lar evangélico, porém de fato, muito do que vivenciei tinha pouco haver com tais ensinamentos… Por vivenciar tantas incoerências com o que me era ensinado e cobrado (o que nos obrigava a viver de segredos e meias verdades) experimentei bem cedo um sentimento de solidão agudo. Em minha inocência pedi em oração a DEUS um amigo, alguém que me fizesse companhia. Pedi especificamente que fosse de alguma espécie animal, um passarinho, um rato, um cachorro, enfim, eu não achava que humanos eram muito confiáveis (porque será rs). Sim eu pedi. Por algum tempo tive a esperança de ser atendida, mas depois da morte prematura de uma cachorra que ganhei (pelo que lembro ela não viveu comigo mais que três meses) e que teve o enterro mais sacaneado de todos os tempo, por causa de meu choro compulsivo (coisas de crianças, somos muitos irmãos rs), entendi que DEUS havia me respondido com um sonoro NÃO.

O tempo passou, a vida seguiu, e cresci. Busquei inclusive através de minha formação recuperar a confiança perdida em seres humanos. Neste percurso errei e magoei algumas pessoas, sou humana afinal, tive amigos humanos, alguns por longo tempo, outros por períodos mais breves. Algumas amizades não resistiram as distâncias impostas pela rotina da vida, outras se fortaleceram com tal distância, alguns amigos hoje estão longe, outros perto, alguns foram perdidos e outros novos feitos…ainda assim o sentimento de solidão persistia…solidão que alguns chamam de existencial e outros de solidão simplesmente, não importa, persistia…

Sabem quando somos criança e desejamos algo que não nos é possível ou não nos é dado? Aquela boneca que você queria ou o doce no parque, ou ainda a bicicleta de natal? Creio que não importa muito a razão porque não o temos (às vezes as razões são mais do que sensatas), porém quando crescemos e de alguma forma podemos realizá-los de forma consciente (desde que o objeto do desejo não passe por prejudicar ninguém, nem mesmo a nós mesmos, é claro) o sentimento envolvido em tais realizações são únicos. Foi assim que me senti quando percebi em Albieri o meu pedido respondido…

Eu poderia justificar contando inúmeras façanhas de Albieri, como ele ajudou a Xica, gatinha com problemas de locomoção no início da vida, a usar a caixa de areia e assim não se sujar até que tivesse forças para se sustentar nas pernas. Poderia contar como ele recebeu Aramis, gato de altíssima energia, e se punha em sua defesa quando as meninas, Jade e Xica, queriam agredi-lo. Poderia contar de como recebeu sempre os novos gatos de forma amistosa e não lhes negava um primeiro banho muito bem dado. Poderia lhes falar de seu amor e cumplicidade com sua irmã de ninhada e toda vida, a Jade. Ou poderia ainda falar do relacionamento um tanto especial que desenvolveu com a canela de algumas pessoas, Humberto, André, tia Claudete, José Antônio, Sérgio (ele adorava mordiscar canelas rs, mas não era para machucar nem nada rs), ou sua paixão mal resolvida com Marcela, não podia vê-la que se jogava no chão de barriga para cima. Poderia ainda falar de seu amor e cumplicidade com Eliane, na verdade este não haveria como descrever… Acreditem, Albieri foi protagonista de inúmeras histórias inspiradoras, mas nenhuma delas se compara ao que ele fez por mim em sua breve existência.

Tive nos últimos anos muitas perdas, especialmente nos últimos meses, tive também muitas vitórias e conquistas neste período e absolutamente em todos os momentos ele estava lá e creio sinceramente, que se não enlouqueci de fato ou não me perdi de vez foi porque ele estava lá. Quando nas fases difíceis imaginava não me levantar e cair doente deprimida ele irremediavelmente me acordava as 7:00h da manhã e não parava de tocar meu rosto, miar e me chamar até que eu me levantasse e fosse trabalhar. Tudo bem pensei eu, resolverei o problema, comecei a me levantar, colocar comida, limpar o banheiro dos gatos (era isso que ele queria certo?!?!?!) e voltar para a cama, nada (eu em minha incredulidade)….ele voltava a me chamar, me acompanhava até o banheiro, ficava sobre o vaso, ou no tapete, esperando que eu terminasse o banho. Odeio tomar café da manhã sozinha, então quando o faço tomo encostada na pia de pé. Quando nos mudamos e não tínhamos mais a companhia da Eliane, ele se postava sobre a pia e esperava que eu terminasse, enquanto isso, eu enchia seus ouvidos de bobagens e ele me olhava com seus lindos olhos azuis esperando, as vezes com certa ansiedade, que eu terminasse rs. Se você pensou que ele estava lá pelos petiscos que poderia ganhar, não, Albieri não comia absolutamente nada além de ração seca e atum Gomes da Costa rs, rejeitava qualquer outro tipo de alimento. Gatinho seletivo… Ele estava me fazendo companhia rs.

Mesmo em seus últimos dias, quando me instalei na sala para passar as noites com ele, dormiu durante os dias em que ainda tinha forças no pufe ao lado do sofá. Passava a noite ao meu lado. Em sua última noite comigo não se privou de me consolar. Levantou e me pediu água, levei-o até o pote, mas ele não conseguia beber, então fez menção de ir a cozinha, lá ficava um de seus esconderijos… Na cozinha miou e me olhou, em seguida olhou para a pia, apesar de nunca incentivar tal habito o coloquei ali e derramei agua mineral para ele beber, ele bebeu um pouco e miou novamente, o peguei no colo, de barriga para cima como de costume e sequei suas patas. Ele então colocou a cabeça em meu peito e começou a ronronar, tivemos nossa última conversa, sabíamos que seria a última. Depois de cerca de três horas ele me olhou e pediu um beijo (ele desde pequeno atendia quando pedíamos beijo nos dando o nariz para cheirar, e assim ele aprendeu a pedir também rs), em seguida pediu para sair do colo, eu o devolvi ao seu esconderijo….

Dando beijos no barrigão do Bibi eu comemorei nos últimos tempos todas as minhas alegrias, foi na sua companhia que eu passei as noites insones, foi para ele que confessei meus amores, minhas virtudes, meus defeitos e as bobagens que fiz, contei sobre novas amizades, sobre o trabalho, o tempo, como o Olaria ia no campeonato. Foi seu olhar que me consolou, sua companhia me fazia experimentar o sentimento de que eu não estava sozinha.

Ele era um gato lindo, com nariz de leão, patas de tigre, barriga de onça e olhos de Frank Sinatra… Meu gato branco, meu Bibi, meu preto… um amigo que amo profundamente…

Sabem o que dizem quando alguém tem um de seus membros amputados e que depois de um longo tempo ainda pode sentir frio, calor, coceira no membro que já não possui? Se assim for, por muito tempo ainda ao deitar sentirei o peso dele sobre minhas coxas, seu lugar cativo, durante muito tempo terei a sensação de satisfação ao chegar em casa e ser recebida por seus grandes olhos azuis na porta. Durante muito tempo me verão falando sozinha, pois terei a sensação de que ele me ouve, durante muito tempo sentirei o calor do seu corpo junto ao meu quando estiver lendo, estudando ou fazendo qualquer outra coisa em casa. Durante muito tempo quando estiver discutindo com alguém, sentirei sua aproximação sutil e o encostar de uma das patas sobre meu braço como que me dizendo calma, calma… Durante muito tempo esperarei que ele apareça em resposta a um breve pronunciar de seu nome, durante muito tempo ouvirei seu miado respondendo a minha pergunta insistente – Não é Bibi? Miao…. É sim Bibi…Miao…. Durante muito tempo permanecerá o sentimento de que alguém me espera em casa para brincarmos com ratinhos… Durante muito tempo não me sentirei sozinha ao tomar café sozinha… Durante muito tempo… Mas se não for verdade, honestamente, não sei como farei… Então publicamente faço nova oração: DEUS me mostra como viver com tamanha saudade, com tamanha falta!!!!

Despedida Albieri

Abraços a todos,                                                                               

Flavia Carvalho – escrito em junho de 2013 após a morte de Albieri

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