Água de poço e a Geladeira

Água de poço e a Geladeira

Minha avó paterna adorava contar histórias, se você acompanha as postagens aqui no blog sabe disso rs. Ela era uma pessoa festiva, colorida, literalmente falando, gostava de ler, falar e cantar.

Costumava contar como tinha tido uma vida dura, trabalhou desde muito cedo e entregava todo o seu pagamento, um envelope amarelo de acordo com ela, nas mãos de sua mãe. Orgulhava-se de dizer isso.

Durante bom período da vida tinha apenas três vestidos, um para sair, um para trabalhar e outro para ficar em casa. O sistema para mantê-los em bom estado e limpos todos os dias incluía lavagens diárias, cadeiras para tomar ar e outras manobras. Ela não admitia, creio que por causa disso, que usássemos a “roupa de sair” para ficar em casa. Sempre me falava da importância de sempre estar limpa e asseada e a prova que era possível era que ela conseguiu fazê-lo a despeito de seus parcos recursos na mocidade.

Contava também que casada e com filhos se mudou para São Paulo em busca de uma vida melhor, lá enfrentou dificuldades e durante um tempo, com quatro filhos pequenos, com idades bem próximas ou como ela dizia em escadinha, tinha que tirar água do poço para abastecer toda a casa.

Imaginem tirar água do poço todos os dias para cozinhar, banhar as crianças, tomar banho ela e meu avô, lavar roupa, louças e limpar a casa, aliás, coisa com a qual ela era absolutamente inflexível, limpeza.

Ela admitia que foi uma pessoa dura muitas vezes com os filhos e com o marido, a vida era dura, ainda assim trazia consigo um ar brincalhão, festivo e barulhento até. Comigo ela também foi dura às vezes e acreditem agradeço a DEUS por isso.

Certa vez conversando com ela longamente na cozinha, adorávamos ficar na cozinha conversando, lhe falei sobre como eu estava enxergando o mundo de forma pessimista, como as coisas iam mal, eram difíceis, então ela, depois de ouvir minhas reflexões, alisando a beira da toalha de mesa com a faca de pão, ela sempre fazia isso, me deu a seguinte resposta. Você nasceu e a geladeira já havia sido inventada minha filha.

Então me falou do tempo em que viveu em um mundo onde não havia geladeira, ferro elétrico, fogão a gás, nada disso. Os avanços eram tantos, inúmeros. Concordou que termos mais informações gera ansiedade, mas acreditava que tudo que de fato era novidade no mundo não era em absoluto negativo.

Minha avó não era o tipo saudosista no sentido de preferir o passado, seu saudosismo estava relacionado às relações com as pessoas que foi perdendo ao longo dos anos e as histórias que viveu e que faziam parte de quem ela tinha se tornado.

Antes de morrer, ainda no hospital teve uma melhora e declarou que gostaria de fazer uma grande festa de aniversário para comemorar seus 90 anos. Não chegou a completá-los.

Na velhice não vivia mais uma situação difícil na vida, pelo menos assim ela não o julgava. Tendo sido mimada e cuidada por sua filha até seu último dia de vida passou a se dar o direito a ter mimos, como uma coleção de sapatos de um mesmo modelo, mas cada um de uma cor, aliás, ela amava os vermelhos rs, mas sua maior gratidão não era relacionada as coisas que passou a ter, mas a vida como um todo, ao conjunto da obra.

Gostava de viajar, amava seus filhos e netos e se mostrava grata por tudo, grata a DEUS. Demonstrava tal gratidão entregando folhetos aos domingos pela manhã e convidando as pessoas à conhecerem Jesus, cantando hinos e sempre repetindo como forma de agradecimento a DEUS, que só Jesus Cristo Salva…

Em um dia qualquer estávamos em casa e ela se pôs a lavar a louça do almoço, me chamou feliz e me disse que tinha algo para me mostrar, estava exultante. Ela havia composto um corinho (nome dado a pequenos cantos utilizados nas igrejas para o louvor).

Depois de compô-lo ela o repetia incansavelmente, se aparecia uma oportunidade qualquer, em qualquer lugar para qualquer pessoa, ela o cantava e expressava assim sua gratidão por tudo o que havia vivido e também por ter tido o privilégio de compor, algo tão simples, mas que expressava sua forma de encarar o mundo e a vida.

Abraços, PAZ

Flavia Carvalho

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